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sexta-feira, 22 de julho de 2011

Da prisão, líder palestino convoca milhões às ruas

21 julho 2011/Vermelho http://www.vermelho.org.br (Brasil)

Da prisão israelense de Hadarim – onde cumpre cinco penas de prisão perpétua – o líder palestino Marwan Barghouti pediu ontem que "milhões" saiam às ruas em setembro, em apoio ao pedido de independência palestina, que deve acontecer em setembro, durante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).
Crianças palestinas levantam cartaz de Barghouti

Em carta enviada à imprensa, ele incentiva os palestinos nos territórios ocupados por Israel e em outros países a "marchar pacificamente" durante a semana de votação do pedido na Assembleia Geral das Nações Unidas.

O plano palestino de pedir que a ONU aceite a Palestina como membro da organização deu início a uma disputa diplomática com Israel, que o considera – apoiado por seu aliado norte-americano – um ato unilateral, contrário aos acordos de paz assinados.

Com a paralisação das negociações de paz desde 2008 e sem sinais de que serão retomadas em breve, os palestinos disseram que pedirão na ONU uma votação em favor de sua independência. A aprovação na Assembleia Geral seria simbólica e teria pouco efeito prático, mas os palestinos acreditam que o endosso internacional representaria uma forte pressão para que Israel saia dos territórios ocupados.

O líder Barghouti manteve a influência que conquistou durante o movimento insurgente mesmo após ter sido preso. É frequentemente apontado em pesquisas como um dos favoritos à Presidência palestina.

No texto, ele diz que a ida à ONU é parte de uma nova estratégia palestina que abrirá as portas para mais manifestações. A ideia é reproduzir o espírito das revoluções árabes e acirrar a pressão sobre Israel com o aval da ONU.

"Vencer a batalha de setembro, que é um passo importante de nossa luta, requer os maiores protestos pacíficos aqui e na diáspora, nos países árabes e muçulmanos e nas capitais internacionais", disse Barghouti.

Líder palestino
Barghouti, de 51 anos, talvez seja o mais conhecido líder palestino detido por Israel – e um dos cerca de 10 mil presos políticos o que conflito já fez. Ele cumpre cinco sentenças de prisão perpétua por sua participação em levantes armados na última década. Seu nome sempre é citado quando se discute o futuro político da presidência palestina.

A mulher de Barghouti, Fadwa, afirmou que o marido ditou a mensagem para seus advogados durante uma visita recente. Ainda não está claro como a convocação de Barghouti vai evoluir, já que as manifestações vão depender da organização de ativistas pró-palestinos.

Segundo especialistas, Barghouti vem tendo sua trajetória política comparada a de Nelson Mandela – ativista e ex-presidente da África do Sul. A comparação é surgiu principalmente a partir das declarações do líder baseadas na chamada “resistência pacífica”, como pregava o militante africano. E hoje, mesmo preso, é uma das figuras mais populares da Autoridade Palestina.

Barghouti nasceu em uma aldeia próxima de Ramallah, e se tornou membro do Fatah ainda com 15 anos. Com 18, foi preso pela primeira vez por ter envolvimento com grupos militantes palestinos. Em 1987, atuou como um dos principais líderes da Primeira Intifada, levando os palestinos a protestarem em um levante contra Israel. Em 1996, Barghouti foi eleito para o Conselho Legislativo da Palestina, quando começou sua defesa ativa por um Estado Palestino independente.

Durante a Segunda Intifada, sua popularidade cresceu ainda mais e o líder passou a ser visto como uma das principais forças de combate contra as Forças de Defesa Israelenses. Ao mesmo tempo em que via sua popularidade junto às massas aumentar, o líder palestino exortava ações combativas contra Israel. Em 2001, ele conseguiu se livrar da primeira tentativa de prisão.

Só em abril de 2002, Barghouti foi preso, sob a acusação de assassinato e tentativa de homicídios decorrentes dos movimentos de insurgência popular dos quais participou. Desde que está preso, seus apoiadores – entre eles, autoridades políticas, militantes, membros do parlamento europeu – acreditam que Barghouti é uma espécie de Nelson Mandela palestino, uma vez que é apontado como o líder ideal para reanimar um movimento à deriva e dividido nacionalmente.

Estado palestino
No Brasil, a campanha “Pela Criação do Estado da Palestina Já” está em desenvolvimento e a manifestação é respaldada por cerca de três dezenas de organizações políticas e sociais. A Palestina já é reconhecida política e moralmente por mais de cem países.

A Palestina também foi admitida nas organizações da ONU, com exceção da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e da Organização Mundial de Saúde (OMS). E o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em pronunciamento feito em maio deste ano, admitiu a criação do Estado palestino com as fronteiras de 1967.

O ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, comparou a eventual decisão da ONU em favor dos palestinos a um “tsunami”. O novo embaixador de Israel na ONU, Ron Prosor, informou à imprensa israelense que o reconhecimento da Palestina por parte da ONU “levaria à violência e à guerra”.

Em 1947, a Organização das Nações Unidas (ONU) criou o Plano de Partilha da Palestina, que resultou na criação do Estado de Israel. Essa iniciativa abriu caminho para uma tragédia cotidiana para o povo palestino. Mais de 500 vilas e comunidades palestinas foram destruídas. Milhares foram presos, torturados e assassinados.

Palestinos foram expulsos de suas casas e de centenas de cidades. Cerca de 4,5 milhões de refugiados palestinos vivem hoje pelo mundo, sendo que a maioria destes se encontra nas fronteiras da Palestina ocupada, e o Estado de Israel segue negando o direito de retorno. (Da Redação, com agências)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

DESMOND TUTU, ISRAEL E EU

25 maio 2011/Carta Maior http://cartamaior.com.br (Brasil)

Para mim, é tão imoral empresas lucrarem com a ocupação israelense da Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Leste quanto era no caso das empresas que lucravam com o apartheid sul-africano. Como o mundo e eu aprendemos há 25 anos, a pressão externa é muitas vezes necessária para provocar mudanças políticas e deter um governo opressor. A geração de hoje está preparada para desempenhar um papel histórico, ajudando a trazer a paz, a justiça e a igualdade para o Oriente Médio. O artigo é de Jordan Ash.

Jordan Ash - Common Dreams (EUA)

(Jordan Ash é representante do movimento Jewish Voice for Peace, em Minnesota,EUA)

Quando eu era criança, minha mãe incutiu-me um forte sentido de certo e errado. A moral que ela transmitiu estava firmemente enraizada na história do povo judeu. Minha mãe falou-me dos pogroms na Rússia, das duras condições de trabalho que os judeus tiveram que suportar e da discriminação que enfrentaram nos Estados Unidos. Ela também me falou de Samuel Gompers, que fundou a Federação Americana do Trabalho, e de Michael Schwerner e Andrew Goodman que deram suas vidas, ao lado de James Chaney, no movimento em defesa dos direitos civis.

As lições que aprendi foram claras. Devemos lutar pela Justiça. A discriminação e o preconceito são coisas erradas. Todas as pessoas são iguais e merecem ser tratadas com dignidade e respeito.

Nos feriados, comemorávamos momentos onde praticamos essas lições. Na Páscoa, nos lembrávamos que éramos escravos no Egito. A Chanukah é a história de como Judas Macabeu e um pequeno grupo de homens derrotaram o exército grego para que pudéssemos praticar a nossa religião. No Purim, nós vaiávamos quando ouvíamos o nome de Haman, que queria destruir os judeus e brindávamos a Ester que arriscou a vida para salvar seu povo.

E, é claro, ela me falou do Holocausto, das formas heroicas com os quais os judeus lutaram e dos modos horríveis pelos quais morreram. Esta foi a história que deu tanta importância à fundação de Israel. Era como se, após uma sucessão de tragédias, a história do nosso povo tivesse um final feliz.
Como fui ensinado, os árabes queriam negar-nos esse final feliz e jogar todos os judeus no mar, simplesmente porque eram judeus. Eu, como tantos outros judeus, não fui ensinado que a fundação de Israel exigiu a remoção forçada de 700 mil palestinos.

Quando cheguei à faculdade, em 1985, rapidamente me envolvi em uma tentativa de envolver a escola em um boicote contra empresas que faziam negócios com a África do Sul. Fui preso em um ato de desobediência civil, juntamente com outros dez estudantes, incluindo Amy Carter, filha do ex-presidente e ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Jimmy Carter.

Por volta dessa época, vi um panfleto que falava sobre a aliança profana entre os Estados Unidos, África do Sul e Israel. Eu quis acreditar que se tratava de uma falsa acusação promovida por anti-semitas contra Israel, mas não era. Israel forneceu armas para o regime do apartheid.

Alguns anos mais tarde, quando Nelson Mandela foi libertado da prisão e visitou os Estados Unidos, alguns judeus ameaçaram protestar por causa de declarações de Mandela, comparando a luta dos palestinos com a dos negros sul-africanos.

O fato de essa verdade sobre Israel ser algo muito doloroso, eu ignorei-a. Mesmo eu que procurava viver com os valores transmitidos por minha meu, que trabalhava com os sindicatos e organizações da comunidade, ignorei o que as pessoas estavam dizendo sobre a opressão contra os palestinos. Eu coloquei Israel fora da minha mente e, por um longo tempo, também coloquei os judeus fora de minha mente.

Então, vinte anos depois, ouvi um grupo de jovens judeus se manifestarem contra o que Israel estava fazendo nos territórios ocupados e como eles – como judeus – se sentiram obrigados a fazer tudo o que podiam para impedir isso.

Eu fui para Israel então, para ver com meus próprios olhos. Eu vi que Israel estava construindo um muro de 425 milhas, separando comunidades e famílias umas das outras, agricultores de suas terras e impedindo os palestinos de chegarem ao trabalho ou à escola. Vi que o governo israelense estava demolindo casas palestinas, enquanto continuava permitindo a construção de novos assentamentos judaicos.

Ficou claro para mim que o principal interesse de Israel não era alcançar a paz, mas tomar as melhores terras para si, enquanto forçava os palestinos a uma vida de pobreza cheia de lembranças diárias de seu “status inferior”. A minha experiência confirmou o que Jimmy Carter tinha dito: que Israel criou um sistema de apartheid.

Pouco tempo depois de ter voltado, a Universidade de St. Thomas, em St.Paul, desconvidou o arcebispo Desmond Tutu para uma atividade, após o Conselho de Relações da Comunidade Judaica ter dito que Tutu teria feito comentários ofensivos à comunidade.

O que Tutu havia dito? “Eu fiquei profundamente angustiado na minha visita à Terra Santa, que me lembrou muito do que aconteceu com nós, negros, na África do Sul. Eu vi a humilhação dos palestinos nos postos de controle e de bloqueio nas estradas, sofrendo como nós, quando os jovens policiais brancos nos impediam de nos locomover”. Às vezes a verdade dói.

O site JCRC Minnesota apresenta uma citação do líder zulu sul-africano Chefe Buthelezi dizendo que “o regime israelense não é o apartheid”. Quem é o chefe Buthelezi? Ele foi um dos únicos negros sul-africanos a se opor ao boicote e a incentivar o investimento estrangeiro na África do Sul, alegando que era uma coisa boa para o povo negro. A comunidade empresarial internacional abraçou-o e ignorou o fato de que todos os líderes negros do movimento anti-apartheid eram a favor de sanções e do boicote.

Inspirado pelo sucesso do movimento de boicote e de desinvestimento contra o apartheid sul-africano, uma ampla fama de organizações da sociedade civil palestina fez um apelo em 2005 em favor da campanha Boicote, Desinvestimento e Sanções como parte de uma campanha não violenta para acabar com a ocupação israelense.

As pessoas que se opunham ao boicote à África do Sul 25 anos atrás argumentavam que a melhor maneira de mudar o apartheid era por meio do “engajamento construtivo” das corporações com o regime do apartheid. Elas estavam erradas.

Para mim, é tão imoral empresas lucrarem com a ocupação israelense da Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Leste quanto era no caso das empresas que lucravam com o apartheid sul-africano. Como o mundo e eu aprendemos há 25 anos, a pressão externa é muitas vezes necessária para provocar mudanças políticas e deter um governo opressor. A geração de hoje está preparada para desempenhar um papel histórico, ajudando a trazer a paz, a justiça e a igualdade para o Oriente Médio.

Tradução: Katarina Peixoto